28.3.12

O Deus de Espinosa


“Pára de ficar rezando e batendo no peito!
O que eu quero que é que saias pelo mundo e desfrutes tua vida.
Eu quero que gozes, que cantes, que te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos horrorosos, obscuros e frios que tu mesmo construíste, e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está lá nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo, e aí expresso o meu amor por ti.

Pára de me culpar pelas coisas que te ocorrem: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar o teu amor, o teu êxtase, a tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Eu nunca escrevi nada, nunca peguei numa caneta... Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no bondoso olhar dos teus amigos, nos olhos inocentes do teu filho — não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como eu devo fazer meu trabalho?
Pára de querer me orientar e dizer como tenho que proceder!

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão o tempo todo. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz — foi para te encher de paixões, de prazeres, sentimentos, necessidades, incoerências, livre-arbítrio e gostosura.

Como posso te castigar por seres como és — se Eu sou que te fiz?

Tu achas que eu criaria um lugar quente chamado Inferno só para queimar os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer uma coisa dessas?!

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas que alguns safados inventam só para te manipular e te controlar. Só para te encherem de culpa.

Se quiseres pagar o dízimo, paga — mas fiscaliza a destinação!

Respeita o teu próximo como a ti mesmo, e não faças a ele o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, e que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o única coisa que há aqui e agora, e só disso é que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes.
Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida o que quiseres.

Eu não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho: Vive como se não houvesse mais nada. Vive como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada depois, já terás aproveitado da oportunidade que te dei aqui.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste bem comportado ou não. Eu só vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste...
Do que mais gostaste? O que foi que aprendeste, e que belas coisas tu criaste?

Pára de crer em mim!
Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim!
Eu quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Quando danças!

Pára de me louvar!
Que tipo de Deus narcisista tu pensas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem todo dia. Me cansa que me agradeçam toda hora...
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do teu mundo.
Te sentes maravilhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito bom de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir feito um papagaio tonto esse monte de besteiras que te ensinaram sobre mim.

A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Então, por que raios é que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?

E não me procures fora, no exterior de ti!
Não me acharás.
Procura-me dentro de ti... Aí é que estou — batendo em teu coração."

Baruch Spinoza


Não sei se o texto original é mesmo de Espinosa. Mas esta é a minha versão. Alterei muito certas partes, porém sem comprometer o todo da ideia. O meu Deus é muito parecido a esse "de Espinosa".
Edson Marques. Março de 2012.



Bento de Espinosa (1632—1677) foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com Descartes e Leibniz. Nasceu em Amsterdã, numa família judaica que havia fugido da Inquisição de Portugal. Foi um grande estudioso da Bíblia, do Talmude e da filosofia oriental. Também estudou muito Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro e Giordano Bruno. Ganhou fama pela sua ideia de Deus igual Natureza, e ainda pelo fato da sua ética ter sido escrita sob forma de postulado e definições, como fosse um tratado de geometria.