20.7.11

Tem coisas que eu não conto

Era outubro, chovia. Fabiane, a musa que dança sobre patins no asfalto azul da nossa rua, deliciosa, me traz um papelzinho:
— Que coisa mais linda você escreveu pra Denise!
— Escrevi tanta poesia pra ela... Qual é essa?
— Sobre a primeira vez que você a tocou sensualmente. Vou ler só o finalzinho, veja: “Se os deuses quiserem me fazer um grande favor, um favor especial.; se quiserem me cobrir de glória outra vez, que me dêem de novo, antes que eu morra, mais dois ou três segundos iguais àqueles”.
— Realmente — concordo.
— Mantém essas coisas que você disse, ainda hoje?
— Tudo o que escrevi e tudo o que pensei a respeito dela; tudo o que falei para Denise será mantido até o fim dos meus dias.
— Ela foi a única paixão da tua vida?
— No sentido que você provavelmente pensa, não, pois te considero também uma paixão. Grande e também única.
— Como assim?
— Toda paixão é única. Só que Denise é incomparavelmente única. E quando falo dela é como se falasse de alguém que está perto de mim, dentro de mim, sobre, embaixo, em volta de mim. Alrededor. E longe ao mesmo tempo. Denise é um caso à parte...

(Lembro aquela noite em Juqueí, no hotel, nós dois, foragidos, deitados num quarto com vista para o mar, as janelas abertas. E eu, quase sem voz, dizendo-lhe em pensamento: Agora, Denise, agora que sinto teus mamilos espetando com açúcar minha língua trêmula, a pontinha dos seios tocando-me os lábios vermelhos; agora, que minha mão esquerda remexe teus cabelos negros, e acaricia tua orelha; quando ouço teus suspiros delicados nascendo do espírito e vivendo por tesão; agora que minha mão direita alcança de leve teu clitóris e vasculha teus pêlos e arrepios; quando sinto tuas unhas me riscando as costas de amor; agora, que estou envolvido por duas atmosferas de escândalo sobre nós; agora — justamente agora, Denise — como eu poderia esquecer-me de Deus? Como?)

Fabiane me puxa para fora de mim:
— E esses dois ou três segundos a que você se refere: gostaria de tê-los com ela outra vez?
— Impossível: dois segundos nunca se repetem — ao menos não com a mesma pessoa, o mesmo amor, o mesmo ardor, a mesma emoção. Dois segundos serão sempre outros.
— Então pode ser outra mulher?
— Deve ser outra — respondo convicto.

(E eu fico dois ou três segundos pensando em Jenny Lou.)

Meu verbo vive em permanente estado de ereção, e não teria razões para colocar camisinhas nas palavras que profiro: Proteger-me do quê? Impedir metáforas de engravidar teus sonhos? Jamais. Porque sou um poeta — não animal invasor! Não penetro minhas amadas, quase nunca. Primeiro, eu entro nelas com poesia. Depois, às vezes, com dedos delicados, mãos de seda, língua fantástica, ombro bronzeado, cotovelo dobrado, orelhas atiçadas, cérebro em ponto de bala. E um coração entusiasmado. Já interiorizei meu sexo e só falo com o próprio corpo. Um cetro sangüíneo é a última coisa que penso em colocar nas mãos de uma rainha.

A tesão da minha poesia é inesgotável.
Portanto, são divinos os orgasmos que ela dá.
Meu verbo vive em ereção.

Hoje já é sete de março do ano que vem. Ontem passaram por aqui Crazy e Dominique — as primeiras. Fizemos amor da forma mais escandalosa e impressionante que os nossos loucos corações conseguiram. Oito horas ouvindo a faixa sete, Destination Anywhere, tomando vinhos — brancos e vermelhos — comendo azeitonas gregas, conversando sobre a vida, tocando nossos corpos, uns nos outros — nus.
— Etc.
Nunca havia sido tão bom.
Caímos de cabeça na Ilha de Lesbos!
Tentei encontrar Danielle, mas não foi possível. (Sei que ela iria gostar também: formaríamos um quarteto de cordas). Meia noite depois, Diana trouxe uma prima, loirinha, parecendo um anjo de uns quinze anos. Uma coisa "indescritível", por enquanto. Ainda não voava mas já tinha um parzinho de asas abertas...

Paritosh ficou tão impressionado que tive de contê-lo:
— Swami, ich möchte Käse! — grito com ele em alemão. "Nur eine kleine Portion". Ele sorri da minha pronúncia como dissesse: "Desse jeito, Edson, você nunca vai conseguir ler Johann Wolfgang von Goethe no original". Resignado, larga suavemente as mãos da princesinha, e vai buscar a pequena porção de queijo que lhe pedi.
Traz uma grande.
Fico pensando.
(A faixa sete é "It"s Just Me" — Amo essa música!.)
No dia em que comprei "Os Sofrimentos do Jovem Werther" e estava lendo a primeira página, Paritosh me olhou, sarcástico:
— Edson, comece pelo "Fausto", em português. Você ainda olha mais para o dicionário do que para o Goethe...
(Acabei seguindo seu conselho.)
O sátiro corta um pedacinho de queijo, pede que Diana feche os olhos e abra a boca — mas ele, antes de mais nada, faz teatro, acaricia os ombros dela.
— Lua, qual é mesmo o nome da tua priminha?
— Jenny Lou.
— Ah... Jenny Lou...
Com o pedacinho ainda suspenso de queijo, Diana esperando, os lábios descolados, ele me olha meneando a cabeça, sorriso de Mefistófeles, e repete:
— Jenny Lou, Mahatma — Jenny Lou...
(Diana, essa, é quem me deu o disco do Jon Bon Jovi. Há também a outra Diana, aquela... — para mim, inconfundíveis.)

Pouco depois chega R, a virgem dos mamilos enormes. Mais tarde, vestida de preto, loiríssima, Alexandra, aquela que um dia me disse: "Quando te conheci, Edson, e fizemos amor logo no primeira meia hora, pensei que você fosse um grande filho-da-puta — e te odiei. Depois, ao ver que era só um pequeno filho-da-puta, comecei a te amar, apesar de tudo. Mas quando fiquei apaixonada realmente, e vi aquele monte de mulheres ao teu lado, cheguei à conclusão de que você é, realmente, um enorme filho-da-puta."

("Gigantesco".)

E eu aqui, agora, meio bêbado, no meio dessas mulheres todas. No meio, em cima, por baixo, por dentro, por fora, por frente — e às vezes por trás de algumas delas. Meio bêbado, mas excitado inteiro.

Aquela tarde, plena quarta-feira, com Janaína e Eliane, a coisa foi realmente fantástica!!! E toda vez que passo por aqui me lembro do amor que fizemos, e acrescento mais uma exclamação. Logo logo serão mil.

Mas tem coisas que eu jamais poderei contar.