18.5.04

Qual era mesmo o nome da bonequinha?


Nós nos beijávamos na boca. Era lírica, franca, inteligentíssima. Um ser questionante: tudo tinha que ter porquê, o mundo tinha que ter razão, alguma razão. Dizia já ter visto anjos correndo pela casa, mas não acreditava em bicho-papão, Papai Noel, essas bobagens...

Na boca — mas na pontinha dos lábios, é claro.

Quando lhe fazíamos perguntas, as respostas vinham cavalgando a luz, sempre brilhantes. Sua capacidade dedutiva me espantava em todos os sentidos, o raciocínio, turbilhão de faíscas lógicas. Numa palavra: era articulada. Não me lembro de tê-la visto chorar. Loucos um pelo outro, brincávamos como se tivéssemos a mesma idade: a dela. Às vezes, fugíamos para o parque, para a vida. Eu a encantei com minhas histórias da Grécia, e nossas diferenças nos abraçavam por sobre os penhascos do Ibirapuera.

No seu terceiro aniversário, dei-lhe uma bonequinha de pano. Dos vários nomes que sugeri, sabe qual a pequerrucha escolheu para sua amiguinha? "Aventura". Não se largavam, as duas. Viviam abraçadas, dia e noite.

Ela sabia seu lugar naquela geografia extravagante, em que as relações eram poéticas, abertas, descompromissadas. E ocupou com orgulho seu posto de princesa no reino caótico, onde a Arte montava presépios com grãos de arroz. Caótico — mas alegre, libertário, radical.

Nasceu numa espécie de mundo artístico em construção. Seu pai, João, e sua mãe, Regina, eram mais do que isso: eram trapezistas amorosos de um circo mágico e maluco. Com ambos, ela aprendeu a ser exímia.

Engatinhava em corda bamba.

Suas fraldinhas sempre foram feitas com pedaços da bandeira do Brasil. Andava em tambores, lutava com leões, dava saltos mortais no picadeiro da sala. Não havia coisa alguma estável onde a coitadinha pudesse depositar uma esperança. Teve que aprender a ficar bem de qualquer jeito.

Ou ela seria uma artista — ou não seria nada.

Desde que nasceu, e por quatro anos, fomos amigos íntimos. E se eu concluir agora que abandonei-a de alguma forma, talvez me afogue nesse mesmo raciocínio. Portanto, prefiro achar que nos separamos por consenso. Pelo menos me eximo de uma espécie de culpa escandalosa que seria fatal aos meus atuais anseios de pureza.

Ela parecia ter mais de quatro anos no dia chuvoso em que nos despedimos, mas só tinha isso mesmo: — quatro aninhos. Por mais que lhe tenha dito adeus em voz alta, penso que ainda me espera no portão de alguma casa. Já se passaram quinze anos desde então, mas tenho certeza de que, se encontrá-la por acaso na rua, entre milhares de outras, e olhar nos olhos dela — saberei.

Porque os olhos de Kira devem ser os mesmos, devem ter a mesma candura, a mesma inocência, a mesma profundidade. Talvez só um pouco tristes, e pode ser que no primeiro reencontro derramem como pedrinhas de luz aquelas lágrimas que guardaram por mim na minha ausência.


E eu fico pensando. Por que nos separamos de quem menos deveríamos?

Por que será que o destino às vezes desamarra certos laços tão gostosos, que supúnhamos de seda, e quase eternos?

Digo que amo toda perda, porque só a perda abre caminho para o novo, mas no caso dela me pergunto: qual tesouro poderia ter preenchido esse vácuo que a ausência de Kira deixou em mim? E toda tentativa de resposta dá em nada, absolutamente nada.

Nos perdemos um do outro — simplesmente.

O que sinto por ela só posso chamar de saudade.

Tomara que dure para sempre essa procura. Contudo, tomara que a encontre, algum dia, por acaso. Se isso acontecer, vou vibrar, como um esperançoso garimpeiro velhinho que, ao cair da tarde — na última bateia — acha aquele enorme brilhante.

E sorri.



(*) Kira, uma sobrinha que o Destino roubou de mim.