12.2.04

Manual da Separação





À esquerda, capa da edição original, de 1998, desenhada por mim, onde não há título nem texto: apenas uns poucos traços curvos, que suponho dizerem o que eu penso da liberdade. À direita, capa provisória da edição atual, de 2011, com 220 páginas.

Manual da Separação, 1998 / 2011, Ed. Filosoft, SP, 160 / 220 páginas.



Capítulo I
Versículo 5

Meu bisavô, aos sessenta e dois anos de idade, na década de trinta do século passado, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente cujo nome era Loucura. Um despropósito, disseram todos. Mas o verdadeiro rebelde não hesita entre viver e morrer. O senhor Luiz Marques, afogado numa estabilidade quase sempre massacrante, não havia desistido de procurar aquela coisa que atende pelo singelo nome de felicidade.

Gastou janeiro fazendo planos, um mês inteiro ouvindo vozes, que nem Moisés. E aquela menina passando ali, na frente dele, feito convite, descalça, vestidinho de chita, cabelos soltos, meio ressabiada... Os peitinhos inocentes despontando. Então o fazendeiro renascido abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, os novilhos e as velhas emoções.


Tudo por causa de Vitalina.


Por aquela menina delicada ele daria o mundo. Por ela, e pelo que então simbolizava aquele amor inexplicável, abandonou mais de mil cabeças de gado e todas as certezas que lhe haviam dado como herança.


Era um autêntico rebelde: acabou trocando o futuro garantido e certo, porém morno, por um presente delicioso e faiscante. Jogou fora o velho baú de premissas usadas, quebrou as algemas — e caiu na Vida.

Trocou um milhão de verdades antigas por uma pequena mochila de sonhos. Porque, você sabe, não dá para salvar a alma sem antes salvar o corpo. E o que mais excita o ser humano é a possibilidade aberta de uma nova vida.


Então o respeitável senhor Luiz Marques Santos tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu! Pois ele já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida. Abandonou tudo para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos.


Não fosse por isso, eu não estaria aqui, agora, à beira do mar, tomando um belo copo de vinho vermelho e contando essas coisas todas pra você.

Sou portanto bisneto da rebeldia.

Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores.

E existo, por incrível que pareça.

No céu da minha boca não há fogos de artifício.

Só estrelas..




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Capítulo I
Versículo 6


Amar é permitir sempre,
amar é deixar que o outro vá.


Ou que fique, se assim o desejar.

Amar é ter um respeito absoluto
pela própria liberdade e pela liberdade do outro.

Amar é compreender sempre.

E isso não significa apenas
entendimento racional,
vai além, muito além:

Amar é reconhecer
afetuosamente
o direito que o outro tem
de fazer suas escolhas.




Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.

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Capítulo I
Versículo 13












A vida tem dois caminhos:

Ou você segue o caminho da tristeza,
arma-se de medo, de ciúmes e de falsas alegrias,
arma-se de angústia, se repete, fecha os olhos, se acomoda,
e segue sem direção o rebanho dos que não sabem;
obedece regras injustas, não reage, não questiona,
não se aprimora, não lê, não busca, não significa,
não percebe o absurdo em que se mete:
vende a própria natureza por duas ou três moedas de aço,
troca a inocência pura pela responsabilidade apressada,
torna-se respeitável aos olhos da sociedade,
cumpre horários, nunca tem tempo, se preocupa com coisas banais;
comerciante das próprias emoções, já não brinca,
vive correndo, ama com pressa, produz, esquece-se da lua,
e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre,
pequena, cansada e normal;

Ou você escolhe o caminho da ousadia,
compreende, se aprofunda, vai mais longe, realiza,
respeita o ser humano que existe em você mesmo,
resgata a própria vida e o sorriso,
rompe de vez com o passado agonizante,
procura defender a verdade, a justiça e a poesia,
acorda e assopra o fogo da alma que dormia,
ultrapassa os limites que sufocam,
cavalga o cavalo negro, cego e alado
das paixões gostosas e sublimes,
enche o peito de coragem, corações e relâmpagos,
acende de novo esse vulcão que é o teu corpo,
deixa a própria cabeça plena de agora, de ternura e de vertigem,
e parte decidido em busca de Aventura, de Amor e Liberdade.

É uma simples e pura questão de escolha.

Qual é o teu caminho ?


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Capítulo I
Versículo 17



Não penso que te possuo — nem quero te pertencer. E porque somos livres, transitória gostosura, eu me entrego como um ponto de luz nos teus olhos de mar e um toque sutil na tua pele de pêssego.

Eu te quero como um risco delicado, um perigo iminente, mas sem excesso de presença. Desse modo, nem meu mundo termina aqui, nem você será prisioneira de mim.

Não importa se isso dure, nem é preciso que se acabe; não sei se será sempre tão bom e nem busco certezas. Mas, como as delícias do agora me encantam — e bastam — até posso dizer que já estou começando a te amar.


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Capítulo I
Versículo 33














Quando você
deixa de amar alguém
e continua com esse alguém,
não é apenas esse amor que diminui:

é tua própria capacidade de amar que apodrece.

Definitivamente.



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Capítulo I
Versículo 52



Eu nunca pedi à realidade para confirmar minha imaginaçao.




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Capítulo II
Versículo 7




Casamento.


Casamento é coisa de gente ridícula. Casamento é coisa de pobres de espírito, miseráveis de espírito... Um recurso grosseiro que alguns infelizes adotam para sofrer em grupo. O casamento é antinatural. O casamento é o túmulo do amor. É a manifestação mais evidente da falta de criatividade de um certo tipo de gente que não sabe VIVER sozinha.

É normalmente a junção irracional de dois dependentes, dois fracos que não sabem o que querem, pois quando sabem não querem, e quando querem não sabem. Com certeza, se encontraram ambos tropeçando um no outro — sem lógica, sem razão, e sem critérios: não foi fruto de uma escolha, mas obra do acaso.



Estou aqui me referindo àquele velho casamentão tradicional, antigo, rigorosamente monoândrico, monogâmico, monótono, fechadíssimo, inventado apenas para gerar crias e crises.

E que acaba em tragédia.

É um horror.



Claro que também existe o casamento aberto, inteligente, ventilado, livre, moderno — como o teu. Mas, exatamente por isso, nem deve ser chamado de casamento. Na verdade, é a união apaixonada e dramaticamente gostosa de dois seres divinos, românticos e poéticos. Dois seres não ciumentos, criativos, excitantes, amorosos, compreensivos. Alem de amantes de si mesmos, brilham em dobro, e amam a liberdade absoluta, a aventura consciente e o risco incalculável.

Este casamento é magnífico...

Mas também acaba.
E deve acabar porque é brilhante:
Por amor!


Como o teu.
Como o teu será.

Ou já foi...





Este livro não é um manual de separação. São breves ensaios poéticos sobre Amor, Loucura e Liberdade - que não devem ser lidos em seqüência. Na literatura desgovernada, a verdadeira beleza pode estar na desordem.


No filme Hitch — o Conselheiro Amoroso, aparece um livro chamado "Manual da Separação". Só que o filme é de 2005, e o meu livro foi lançado sete anos antes, em 1998.





É o primeiro blog de papel lançado no Brasil.

Tem 160 páginas.

Este meu livro está à venda em poucas livrarias. Entre outras:

Temos Livros - São Paulo - (11) 3223.2585
Realejo Livros - Santos - (13) 3289.4935




Beijos no Céu da Boca.