18.6.03

Hoje eu so´quero ler Rimbaud.
“Quem?” — vejo teus olhos parados em mim, interrogantes. Se você nao sabe quem foi, depois te conto. A perna da minha cama um dia quebrou e o Fausto foi a salvaçao. Rimbaud também dormia aos meus pés. Arthur Rimbaud — como eu queria tanto ser ele. Fiz a Beleza sentar-se no meu colo. Nietzsche, Lorca e Henry Miller também eram tijolos que me amparavam nas minhas noites bambas. Eles acendiam luas novas na escurid?o do meu quarto crescente. Eu ja´era homem de brilhantes perspectivas, grandes horizontes, sonhos fascinantes — e futuro ensolarado, radiante. Mas sem nenhum presente! Aqui reside o segredo principal do meu sucesso: sem nenhum presente. Se eu nao me mexesse, afundaria junto com as circunstâncias. Era preciso portanto que eu sumisse dali, que abandonasse tudo o que me era proximo. Tudo! Pai, mae, irmaos, a fam?lia, os amigos, o dentista, o professor, o padre, as namoradas, minha vo´, meu desespero. Eu tinha que abandonar tudo — inclusive minhas idéias, especialmente as preconcebidas. Os cobertores, a patria, a religiao, e até mesmo o meu cavalo chamado Estrela. Minhas bolinhas de gude, meu quarto, minha cama, meus recortes de jornal. Eu tinha que abandonar tudo. Paritosh me levou a isso desde a infância que tivemos em comum. Eu precisava me desligar do passado — e, como nao tinha presente, jogar-me de cabeça nas aguas do mundo, na correnteza da vida.
Porque so´o rio da vida é alegre.