14.2.03

Quando eu era pequeno, queria muito ser artista ou marinheiro. Entretanto, minha vó me cutucava, sorria escancarando as gengivas, me dava um pedacinho de bolo, limpava suas mãos no avental azul enfeitado de remendos coloridos, e me dizia:
— É muito cedo ainda, meu filho, deixe pra escolher depois.
Eu arqueava a minha boca interrogante, sem saber o que dizer. Ela então arrastava seus chinelos cansados até o fogão, e gritava lá do fundo da cozinha, insuperável:
— Hoje vou te dar dois pedaços...
Era minha maior alegria!
O copo de café com leite, transbordando à minha frente, parecia uma escultura. Eu tamborilava meus dedos impacientes na toalha de linho branca bordada por Tia Yole. Sinto ainda hoje o gosto do fubá na minha boca, esfarelando, o cheirinho do queijo derretido em palha de milho na chapa negra do fogão de lenha. Olho para trás e vejo claramente minha vó Vitalina, com a boca no bico do bule, tomando café e sorrindo pra mim...

Marinheiro não fui — muito longe era o mar. Hemingway bem que tentou me convencer...
Mas agora, quando armo a lona do meu circo, subo no trapézio, passo talco e risco em minhas mãos, seguro firme nas cordas, tomo impulso para o salto, olho meus amores na platéia — e fico pensando nas escolhas que hoje posso fazer na Vida.

E me lembro de novo do velho conselho:
Meu filho... É muito cedo ainda pra decidir.


(Saudades da minha vó Vitalina.)