3.7.02


Não desperdice a Vida.

Meu bisavô, no início do século passado, aos sessenta anos de idade, abandonou tudo e apareceu por aqui trazendo no colo uma adolescente para ser sua mulher: uma enorme loucura... Mas ele era um homem rebelde, um homem que não havia desistido de encontrar a felicidade.
Então abandonou tudo: as propriedades e as impropriedades que a elas se ligam, a esposa controladora, os filhos perplexos, as fazendas, as noras, os netinhos, e as velhas emoções...

Tudo por causa de Vitalina: por aquela menina delicada e de cabelos longos ele abandonaria o mundo. Por ela, e pelo que ela então simbolizava, ele abandonou milhares de cabeças de gado e todas as “certezas” que lhe haviam dado. Era um rebelde: trocou o futuro garantido e certo por um presente gostoso. Jogou fora o velho baú de premissas usadas. Pela possibilidade aberta de uma nova vida, tomou aquelas decisões que só os grandes homens conseguem tomar: montou o cavalo negro do risco absoluto e partiu!

Pois ele também já sabia que o único crime que não tem perdão é desperdiçar a vida.

Abandonou tudo para não ter que abandonar-se a si mesmo, para não ter que abandonar a própria existência naqueles caminhos já percorridos. Não fosse por isso eu não estaria aqui, agora, tomando um belo copo de vinho vermelho e contando essas coisas todas pra você.

Sou portanto bisneto da rebeldia.

Sou bisneto da rebeldia, neto da emoção, filho da loucura, irmão do desejo, primo do prazer, amigo da liberdade, e amante de todos os meus amores.
E existo, por incrível que pareça:
No céu da minha boca não há fogos de artifício.
Só estrelas.