16.7.02


Meu mais recente amor eterno.

Por mulheres já me apaixonei quatro vezes de forma profunda.
Por homem, esta é a primeira.
O processo desse amor pode ter sido longo, mas sua percepção se deu agora, neste exato momento. Vejo-o deitado de costas, é um homem forte, veste um terno escuro e sem gravata, olhos fechados, como a pensar nas coisas da vida.

"— No céu não há luta de classes" — ele vivia me dizendo.

Questão pertinente.
No fundo, é o comunista mais sentimental que conheço.
Corpo atlético, amante da lógica, raciocínio fenomenal.

"— Contradições, tenho muitas, mas todas não-antagônicas" — ele dizia.

É noite.
Fico pensando.
Acho que ele, louco e agitado como é, não suportaria a santa austeridade celestial: nenhuma mulher pelada, só jejuns e orações, padres por todo lado, freiras, irmãs, cardeais...
(Realmente, comunista no céu não tem função).
Amanhece devagar.
Meio sem querer.
Fico me lembrando.

"— Melhor que teu sorriso, só o orgasmo da tua mãe" — disse-me um dia, quando tomávamos café ao lado da roseira branca. (Gostei da frase, mas detestei a comparação.)

Eis que interrompem nosso diálogo mudo, atarraxam-se os parafusos da tampa, mas ainda há tempo de escorrer, bela, sua frase mais marcante:

"— É sempre bom um pouco de ficção para realçar a verdade".

Sufocam minha esperança, engasga-se a minha dor.
Sinto falta de ar.
(A sensação de perda é às vezes insuportável.)
Levam-no, discreto e silencioso.
E, o que é pior — para sempre!

— Vou junto? — fico me perguntando, como se a dúvida fosse um martelo.

O mundo sai fora de foco, misturo visão com memória, misturo bolachas com guaraná, e o chuvisqueiro, enviesado, me bate suavemente na cara. Lembro-me do nosso último abraço, com força, com emoção. Um abraço romântico. Dialético.
Um abraço comprometido.
Fico chorando.
Uma cruz branca, de cimento, pálida e sem mãos, me acena com insistência.
Desnaturam-se os critérios, falseiam-se-me as perspectivas.
Tento me afastar.
Centenas de olhos me intimidam, me seguram, me agarram.
Mas, de novo, a cruz me acena.
Disfarço então essa falta de coragem, subo e deixo lá, crucificada, em azul fraquinho de caneta bic, minha última mensagem, meu último e trêmulo gesto de amor:

— Pai, espero que tenhas ido para o inferno!


(Hoje é o décimo aniversário da morte do meu pai, a quem sempre amei demais. Esta história é verdadeira, e aconteceu no Cemitério da Consolação, em São Paulo, Brasil.)