10.5.02


Separo-me porque te amo, vou-me assim porque te quero, abandono alguns sonhos no teu peito porque preciso ficar só.
Deixo você porque atingimos o pico.
Também sei que poderíamos ir mais além — juntos.
Seria um risco, mas o risco maior é irmos mais além — separados. E entre dois riscos, devemos escolher o mais profundo, o mais radical, o mais incerto, o mais alegre, o mais aberto.
Vamos dar chance a que o mundo todo possa ver e sentir quem somos nós, vamos dar chance a que outras borboletas visitem nossos corações. E se em vez de borboletas nos visitem urubus, não haverá problema: nós agora já sabemos distingui-los. Quando vivemos em absoluto estado de alerta, conscientes como um Buda vivo — todas as experiências valem a pena.

Eu lhe disse essas palavras ontem à noite e ela continuou me olhando só. Entre o meu copo de absinto e o guaraná que ela tomava trançamos nossas mãos. O silêncio se fez dúvida.
Então ela me disse segurando um guardanapo:
— Não dá para todo mundo cavalgar em pêlo um cavalo negro, todo dia, Edson. Não dá pra todas as mulheres conversarem com violetas de manhã... é impossível todo mundo ser feliz...
Ela parece que desiste, mas retruco:
— Por isso é que você deve tentar: porque nem todos podem fazer loucuras na Vida. Alguns já se amarraram demais, já se prenderam demais... Loucuras não são para qualquer um. Por isso é que fascinam, encantam. Se fossem comuns, seriam comuns — apenas.
Todos (em princípio) podem mudar, mas pouquíssimos conseguem.
Só quem é livre muda de verdade.
Ou você não mais se considera livre?

Penso em fazer mais perguntas, mas duas lágrimas de novo rolam na face do meu amor e me dizem que eu posso simplesmente estar errado.
Mas a noite continua brilhando!
É a vida...