20.5.02


Faz cinco dias que eu escrevo sem parar.

Perdi a noção do tempo — se é que um dia eu tive alguma. Fui à banca comprar o jornal de hoje pensando que era de ontem, e voltei sorrindo pela rua, achando a maior graça por esse engano.
— Será que sumiu um dia da minha vida? — pensei.
Não: desapareceu só do calendário.
Dentro de mim, tenho muito mais:
— Sou hoje um século mais longo do que esse dia que "perdi".
Como já disse, faz cinco dias que eu escrevo sem parar.
— E ainda estou na página um da minha Vida...
Fico pensando.
Se eu tivesse um filho, seu nome seria Lúcifer Marques. Lúcifer, em grego, é Fósforos. O planeta Vênus, que de manhã se chama Lúcifer, à tarde se transforma em Vesper. Filho da Aurora e de Júpiter, Lúcifer é o deus condutor de todos os astros. Ajudado pelas Horas, toma conta do carro do Sol e de seus cavalos. É ele quem anuncia aos mortais, todos os dias, a chegada da Aurora, sua amada mãe.
A criança criativa obedece ao deus que lhe habita. Não há voz que a cale — não conhece o significado da palavra "não". O ser bem comportado só é assim porque se amputa.
Fui rebelde, não por vontade própria — mas porque nunca soube ser outra coisa.
Fui rebelde — ainda sou e serei sempre — simplesmente pelo respeito absoluto que tenho pela natureza de todas as coisas.
Sigo esse deus que me anima — de dentro.
Do fundo mais profundo de mim.
Ser rebelde nunca foi o meu destino — está na minha origem.
No caminho da minha vida não tem plaquinha escrito "Retorno".
(E se tiver — boto fogo nela.)
Meu único fim é não ter meio-termo naquilo que faço.
— Nem no que sinto.

Sou inteiro e não me corto!