14.4.02


Eu nasci dentro de mim.

Mas depois foram me arrancando à força, foram — com violência — me tirando de mim mesmo. Tiraram primeiro a minha inocência, depois tiraram aquelas coisas que eu amava: minha gratidão pela vida, meu entusiasmo pela vida, meu maravilhamento pelas pequenas coisas. Tiraram minha alegria por aquelas pedrinhas com que eu brincava, minha alegria pelos meus brinquedos, tiraram minha inocência, cada vez mais. E foram colocando dentro de mim aquelas coisas horrorosas, colocaram responsabilidade, colocaram medo, preconceitos, moral, a idéia de pátria, o conceito de família, a necessidade do trabalho, de uma religião castradora, procriação, pecado, pressa, essas coisas...

Tiraram minha inocência de pegar em suaves mãos desconhecidas, e passear por qualquer lugar. Tiraram minha inocência de ver a beleza de um pardal. Ensinaram-me que qualquer número elevado à potência zero é igual a um, ensinaram-me verdades e mentiras, e mentiras que diziam ser verdades. Tentaram colocar em mim a necessidade de seguir regras. Me disseram que o juízo de valor que se faz sobre um fenômeno é mais importante que o próprio fenômeno... Disseram-me para ter opiniões e defendê-las até à morte — mesmo que erradas. Me ensinaram que existe o certo e o errado, mas não me contaram que às vezes o certo é errado, e o errado também pode ser certo. Me falaram sobre Euclides, e as certezas, mas esconderam o Einstein, e as dúvidas. Quiseram me fazer esquecer como se questiona...

E depois — além da inocência — me tiraram a liberdade. Me disseram que eu só poderia sentir fome em determinados horários fixos. Me disseram que o meu sono ocorreria sempre às oito e quarenta e cinco da noite, e que eu deveria acordar-me às sete e trinta da manhã. Foram muito precisos ao indicar-me caminhos, e horas, e prazos, e regras, e riscos, e temores. Me disseram que o próprio Deus que criou a natureza, o mundo, e todas as coisas belas, era o mesmo Deus que me olhava lá de cima, com seus olhos de rancor, brabo, sério, vingativo, rigoroso... E que Ele trazia sempre um arco e uma flecha de raios para atingir-me se eu cometesse pecados.

Me explicaram detalhadamente o que era pecado, e que eu poderia ser “queimado no fogo do inferno mesmo se apenas pensasse coisas impróprias”. Disseram que existe um monte de coisas condenáveis, e um monte de outras coisas enobrecedoras e “saudáveis”.

Tiraram de mim a inocência de olhar nos olhos de um estranho — e ver neles só amor e mais nada. Me disseram para trilhar apenas os caminhos conhecidos, porque mais seguros. Disseram que eu não deveria nunca amar a aventura, nem arriscar-me pelo novo. Depois, pouco a pouco, foram tirando de mim aquela doce, aquela inocente capacidade de maravilhar-me com pedrinhas coloridas na beira da estrada; de ficar extasiado com uma borboleta que pousasse no meu colo. Disseram-me que não tinha sentido ficar olhando formigas, disseram-me para não mais andar com aqueles meninos pobres e loucos e puros, nem com aquelas meninas gostosas que sorriam pra mim. E que eu devia “acompanhar apenas as pessoas de bem”.

E depois, pouco a pouco — mas com determinação e alguma violência — foram cada vez mais me tirando a liberdade. E não apenas tirando-me a liberdade: eles queriam era matar em mim o próprio desejo de ser livre.

Quase conseguiram...

Mas ficou — bem lá no fundo do meu coração — uma semente, uma pequenina semente que agora germina. E volto aqui outra vez para dentro de mim. E trago de novo aquela inocência outrora perdida. Agora para sempre: qualquer outra coisa que eu faça, que não seja isto que realmente quero, será uma demonstração de que estarei desperdiçando — outra vez — a minha própria vida, a minha única vida.

A minha única vida!


Edson Marques - no livro "Manual da Separação", 1998 - Ed. Filosoft, SP, 160 páginas.