10.3.02


A vida é um circo.

Do lado de cá, um palco; do outro lado — um matadouro. No matadouro, as pessoas sérias representam. No palco, só tem palhaço. Os sérios são responsáveis, e formam um rebanho: mansos que caminham tristemente em direção a nada.

E riem dos palhaços.

Estes, por sua vez, são inconseqüentes — riem da seriedade. Mas com uma diferença fundamental: além de rirem dos sérios, os palhaços riem de si mesmos — e este é o ponto. Quem consegue rir de si, se salva. Quem só ri do outro, se perde. Nos palcos e nos matadouros da vida, todos representam: os sérios e os palhaços — mas só os palhaços têm consciência disso.

Todos nascemos para a Arte, para o inocente jogo da Vida, para o lúdico, para o puro e o sorridente. Alguns permanecem no palco — e se transformam em Artistas, músicos, cantores, poetas, atores, amantes, loucos: todos palhaços. Outros, convencidos à força pelos pais, pelos padres, pelos pastores, pelos professores, pelos patrões e, quando não, pela polícia — ficam sérios. E são transferidos imediatamente para o matadouro. Alguns, contudo, retornam ao palco, depois de perceber que foram iludidos: não lhes agradam os grilhões da seriedade — suas almas de palhaço ainda estavam intactas, por sorte.

Assim que você sai do ovo, algemas claras prateadas lhe são postas nos braços. Grilhões de seriedade nas canelas.

Um pequeno deus — encarcerado.

E eu fico pensando.

Qual será o perverso mecanismo que transforma esse Jesus num chefe de escritório? Quais são os fatores que acabam levando um pequeno Buda em direção ao matadouro? O que é que, na maioria das vezes, arrasta um ser iluminado e o joga no rodamoinho do horror cotidiano — e lhe apaga a luz?

Edson Marques.
julho/1995.