21.2.02


Quem sou eu ? (3)

— Sou livre.

Por isso, nada mais é necessário porque nada é tão preciso. Não existe mais busca, não haverá posse no território que habito a partir de mim mesmo. Nada tenho que possa perder, nem nada existe que queira ganhar. Produto do meu trigo, gume da minha própria faca, sou o verso da minha poesia, a fantasia do meu espírito em repouso. Meu movimento, meu ócio, meu verbo, meu Deus. Minha pátria, minha religião, meu partido, meu clã. Sou saudade e ausência de suspiros, sorte que sustenta-me o corpo, sonho enlouquecido da minha alma, porta que se abre sobre si, a paisagem, a luz — e o olho.

Sou a morte do ontem, e a Vida que chega.

E que basta — naturalmente.

Como nada existe além do que eu perceba, nada mais preciso do que a incerteza que se faz presente, nada me interessa além do que me toca o coração, nem mais urgente que ser máximo, nada mais gostoso do que a própria gostosura, nem mais humano que a divina alma desejante acalmada, saciada por ter sido, e estar sendo, ela mesma — e nada mais. Nada me falta, nem me sobra, sou a exata medida de todas as coisas, um conjunto vazio, um mestre discípulo de Mim, barco sem destino navegando numa breve eternidade — um verdadeiro Himalaia de razões.

Sou portanto o pico de mim mesmo.

— Amém.