20.2.02


Quem sou eu ? (2)

Sou a luz do meu caminho, meu passo, meu galope, meu próprio cavalo, meu cansaço, meu repouso, minha luta. Meu sono despertado, minha garganta e minha voz, as palavras que profiro — e até aquelas que eu nem digo. Sou a paz, harmonia que se reparte, como tudo, aquele que fica e o que parte, o que supõe, o Criador — e a criatura. O pescoço do cisne branco, asas de pássaro no vôo, sou o vento e a vela.

— E o sopro.

Sou o autor da minha peça e o primeiro personagem, a dança e o bailarino, música, regente, o compositor, e cada um dos instrumentos. Sou o lóbulo da orelha do meu amor, a carícia mais profunda e delicada, o beijo e o orgasmo, delícia, o êxtase, e todas as auroras que ainda vou chegar. Sou céu estrelado, a linha do horizonte — e mais além. O sagrado e o profano, o profundo e o supérfluo, a origem da tragédia, o brilho — e o pó.

Sou mínimo — tanto — que sou pouco, princípio, paixão, excesso — e glória. Infinito no meu entusiasmo, sou a última labareda de uma espécie de fogo em extinção.

Sou relâmpago, transição, passageiro, gotinhas de chuva, pingo de mel, uma pétala de rosa vermelha caindo no vácuo.

Sou livre.