1.2.02


Estávamos em São Francisco, e ela em frente à geladeira, aberta, escolhendo uma uva vermelha, a mais vermelha uva entre as vermelhas. Cheguei por trás, e encostei na sua bundinha vestida de azul meu sexo acelerado de amor e de ousadia. Sangüíneo — vibrante. E ela, com um shortinho florido, acetinado, deslizante por sobre a sua pele recentemente adolescente, não se moveu. Ainda escolheu mais duas ou três uvas — demoradamente —, antes de se afastar sem dizer nada, sem sequer me olhar. Meu coração sentiu-se iluminado. Aqueles dois ou três segundos em que ficamos encostados um no outro, em silêncio, delicadamente, numa transferência simultânea de energia — cúmplices do amor que já nascia — são os dois ou três segundos mais fascinantes, mais deliciosos, mais perfeitos de toda a minha vida.
— Únicos.
E se os deuses quiserem um dia me fazer um grande favor, um enorme favor, um favor extraordinariamente infinito, que me dêem de novo, Suzana, antes que eu morra, mais dois ou três segundos iguais àqueles.