29.1.02


Porque, não fosse assim, não pudesse ser assim — eu morreria.

Se eu cumprisse à risca aquele futuro que “as pessoas de bem” me reservaram; se seguisse cabisbaixo o rebanho a que um dia pertenci; se não me cuidasse; se não me amasse como se deve amar o deus profundo — eu certamente morreria antes mesmo de mim. Pular de um penhasco seria muito mais nobre do que cometer esse suicídio cotidiano infernal que vocês chamam de vida. Ouvir um despertador insuportável à cabeceira do túmulo de pano — todas as manhãs; correr apressado em direção ao matadouro número dois — todos os dias; sorrir com falsidade amputada de inseto manco, e ainda beijar a mão do carrasco — essas coisas eu não faço!

Bater ansioso todos os cartões de ponto, atender solícito a todos os telefonemas, apertar parafusos, teclas e botões, apenas em troca de dinheiro — essas coisas eu não sou capaz de fazer.

Não consigo descer tanto...

Há um restinho ainda de orgulho no meu peito. Posso até me prostituir algum dia, quem sabe — mas apenas por algo mais nobre.

Era isso que vocês esperavam de mim, seus putos?

— Em vão!

Não nasci para satisfazer às suas expectativas.