11.10.01



Vitalina.


Quando eu era pequeno, queria muito ser artista ou marinheiro. Entretanto, minha vó me cutucava, sorria escancarando as gengivas, me dava um pedaço de bolo, limpava suas mãos no avental azul, todo enfeitado por remendos coloridos, e me dizia:

-- É muito cedo ainda, meu filho, deixe pra escolher depois.

Eu arqueava minha boca interrogante, sem saber o que dizer. Ela então arrastava seus chinelos cansados até o fogão, e gritava lá do fundo da cozinha, insuperável:

-- Hoje vou te dar só um pedaço...

O copo de café com leite, transbordando à minha frente, parecia uma escultura. Eu tamborilava meus dedos impacientes na toalha de linho branca bordada por Tia Yole. Sinto ainda hoje o gosto do fubá na minha boca, esfarelando, o cheirinho do queijo derretido em palha de milho na chapa do fogão de lenha. Olho para trás e vejo claramente minha vó Vitalina, com a boca no bico do bule, tomando café como se fizesse amor.

Marinheiro não fui, muito longe era o mar.

Mas agora, quando armo a lona do meu circo, depois subo no trapézio, passo talco e risco em minhas mãos, seguro firme nas cordas, tomo impulso para o salto e fico pensando nas escolhas que posso fazer.

E me lembro de novo do velho conselho:

-- É cedo ainda pra decidir.